Sou fã incondicional do "Segundo Caderno" da Zero Hora, e quero dividir com meus dezessete leitores os motivos do meu entusiasmo com o trabalho que a equipe cultural do principal jornal gaúcho vem desenvolvendo. Imagino que não deve ser fácil o trabalho dessa turma e que devem viver sob pressão cerrada, de todos os lados. Se eu, lidando com a curadoria do "Porto Alegre em Cena", ou seja, com um único segmento cultural, o das artes cênicas, já me vejo muitas vezes envolvido por um tsunami de cobranças e queixas, imagino um caderno cultural com a abrangência e a responsabilidade do "Segundo Caderno". A boa notícia, a principal na verdade, é que eles trabalham muito bem e tiram de letra seus desafios cotidianos.

A turma talentosa do Segundo Caderno
Antes de tudo, é preciso dizer que leio diariamente todos os cadernos dos principais jornais brasileiros – primeiro, porque ler jornais impressos é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida; depois, porque é minha obrigação estar ligado nos lançamentos e novidades da produção cultural nacional. Minha opinião não é, pois, de maneira nenhuma, bairrista e sem fundamento. A obrigatoriedade inerente de cobrir nossos principais fatos e eventos culturais esbarrará sempre nas notícias nacionais e internacionais, nas conveniências comerciais, nas mortes repentinas – pois tudo, todos, precisam e reclamam espaço. Isso não acontece somente em Porto Alegre. Em qualquer cidade com um grande jornal acontece exatamente a mesma coisa. Imagino que nas pequenas também.
Por isso valorizo, e não é de hoje, o nosso "Segundo Caderno". Como todo bom gaúcho, tenho orgulho em exaltar as virtudes dessa terra estranha. Sem fazer um inventário de todos que passaram/estão ali, é obrigatório citar Cláudia Laitano e Ticiano Osório, como artífices desse belo resultado jornalístico. São pessoas atentas, generosas e decididas. Cláudia é uma das minhas cronistas preferidas. Tem uma qualidade incomum, pois alia inteligência e competência à uma espécie de timidez sincera, como se não quisesse chamar nunca a atenção para si - e sempre para o que está escrevendo em seus comentários. Sua crônica semanal, no corpo do jornal, onde também encontramos os excelentes Martha Medeiros e David Coimbra, é um dos melhores momentos da imprensa gaúcha. Ticiano é outro que merece grande destaque; um editor antenado e que tem valorizado a produção local, como poucos antes dele valorizaram. Nos emails esporádicos que trocamos, acabamos sempre comentando os últimos lançamentos da literatura. Aliás, é bom que eu diga: sou eu que sempre mando emails para ele, comentando as matérias e a diagramação do dia, vibrando com coisas que me tocaram, falando de idéias que me passam pela cabeça. A página do Soleil, anunciando a vinda do grupo a Canoas, foi antológica; a do filme sobre a Pina também.
E nem cabe aqui citar tudo o que gosto na diagramação do caderno, pois não sou um especialista na área. Apenas gosto, acho bonito, tenho vontade de ler, de virar a página, de ver a próxima matéria. De vez em quando, quando acho que posso chamar a atenção sobre um trabalho bacana, um artista novo, cheio de dedos pra não avançar o sinal, mando um artigo pra ele avaliar a pertinência. Ou seja: gosto tanto do clima do Caderno, que me dá vontade de participar dele. Mas não sou jornalista, nem quero ser. Sou um leitor, fundamentalmente um leitor – que torce pra ter uma leitura diária agradável, instrutiva e informativa. No "Segundo Caderno", encontro o que espero: notícias relevantes que vão alimentar a fome voraz de um legítimo consumidor da vida cultural de Porto Alegre. E também como diretor de teatro, ou seja, como artista local é grande meu reconhecimento/agradecimento ao espaço destinado às boas produções do teatro gaúcho.
Não posso deixar de registrar minha admiração pelo Roger Lerina, admiração antiga, já objeto de algumas considerações por escrito, inclusive aqui. A sua "contracapa" é um dos pontos altos da nossa imprensa; o jeito dele escrever, sua doçura e seu humor, enfim, seu estilo e sua contribuição à nossa informação são fundamentais para quem quer ficar por dentro do que vai acontecer na cidade. Há nomes que conheço de raspão, jornalistas de quem sou igualmente fã: Patricia Rocha e Fábio Prikladnicki (a cargo de quem está a cobertura teatral das atrações cênicas da cidade, sempre respeitoso e ponderado em suas opiniões e comentários) são exemplos. Há colaboradores como Luís Augusto Fischer, que dispensam maiores apresentações e que elevam o nível da nossa discussão cultural.

Ticiano Osório, o editor
O que mais admiro num jornalista local é quando, através do seu trabalho, conseguem transformar o paradigma dos caranguejos gaúchos, da dureza que é vencer num meio quase sempre hostil aos que ganham notoriedade e. Mas não partilho, nem gosto, da idéia de que Porto Alegre é o centro do mundo. Que a vida não se restrinja a Porto Alegre, pelo amor de Deus! – que o mundo é maior e mais complexo que a nossa bela cidade. E é por isso que admiro o caderno cultural da Zero Hora - o meu, o seu, o nosso "Segundo Caderno". Ao falar sobre a nossa aldeia e misturar, em doses exatas, a cobertura local com o que de fato importa no mundo; ao valorizar os melhores frutos de nossa cultura artesanal com a indústria do entretenimento, equalizando muito bem as variáveis desse relação delicada, a turma que toca o "Segundo Caderno" eleva nossa imprensa à qualificação da melhor imprensa nacional, sem nada a dever aos cadernos culturais do resto do país. E é muito bom testemunhar e fazer parte disso tudo e, uma vez na vida, inverter a equação e escrever sobre o trabalho deles. Rapazes e moças do "Segundo Caderno": sinceros parabéns!